Tratamento da apneia melhora a qualidade do sono dos parceiros

O ronco frequente pode afetar não apenas quem apresenta o sintoma, mas também a pessoa que dorme ao lado. Estudos recentes demonstram que o tratamento da apneia obstrutiva do sono pode melhorar a qualidade do descanso dos parceiros que convivem com o problema.

Entendendo o Estudo

A pesquisa acompanhou 63 casais em que um dos parceiros tinha apneia obstrutiva do sono moderada ou grave. Antes do tratamento, os parceiros apresentavam com frequência sono fragmentado, dificuldades para adormecer, menor duração do sono e pior qualidade do descanso.

Os pacientes com apneia foram divididos entre tratamento com CPAP (Pressão positiva contínua nas vias aéreas), equipamento que mantém as vias aéreas abertas durante o sono, e uma intervenção placebo com tiras nasais. Após três meses, os parceiros de quem utilizou CPAP apresentaram melhora na qualidade do sono e na sonolência durante o dia. Também passaram menos tempo acordados após se deitar e tiveram menos despertares durante a noite.

“Quando falamos sobre ronco, normalmente nossa preocupação está concentrada em quem apresenta o sintoma. Mas o sono é compartilhado. Se o parceiro desperta diversas vezes durante a noite por causa do barulho ou das alterações respiratórias de quem está ao lado, ele também pode não conseguir manter um sono contínuo e reparador”, explica o Dr. Fábio Caparroz, coordenador do Departamento de Medicina do Sono da ABORL-CCF (Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial).

Impactos no Sono do Parceiro

O ronco pode provocar interrupções no sono de quem divide a cama. Mesmo que a pessoa não acorde completamente, os ruídos e as alterações respiratórias podem fragmentar o descanso. Uma pesquisa anterior da Mayo Clinic acompanhou dez casais durante uma polissonografia. Quando o ronco e os eventos respiratórios dos pacientes foram controlados com CPAP, a eficiência do sono dos parceiros passou, em média, de 74% para 87%.

Os pesquisadores calcularam que essa diferença seria equivalente a aproximadamente 62 minutos adicionais de sono em uma noite de oito horas na cama. A repetição de noites mal dormidas pode gerar cansaço, sonolência, dificuldades de concentração e alterações de humor.

“Não é apenas uma questão de quantidade de horas. Uma pessoa pode ficar oito horas na cama e ainda acordar cansada se o sono for interrompido repetidamente. Quando isso acontece com frequência devido ao ronco do parceiro, é essencial considerar a qualidade desse descanso e o que pode estar causando essas interrupções”, afirma Caparroz.

Ronco e Apneia: A Relação

Nem toda pessoa que ronca tem apneia obstrutiva do sono. O ronco pode ocorrer isoladamente, e a avaliação médica leva em consideração outros sintomas e fatores antes da indicação de exames. Sinais como ronco intenso e frequente, pausas na respiração, engasgos ou sensação de sufocamento durante a noite podem levantar suspeita de apneia.

O parceiro pode ter um papel importante nessa identificação, pois quem está dormindo muitas vezes não percebe as alterações que acontecem durante a noite. “Com frequência, é quem dorme ao lado que percebe se o ronco é acompanhado por pausas respiratórias. O paciente pode não ter consciência do que acontece enquanto dorme. Esse relato pode ser uma informação valiosa durante a consulta”, explica o Prof. Dr. André Alencar Araripe Nunes, presidente da ABORL-CCF.

Sintomas diurnos como sonolência excessiva, sensação de sono não reparador e dificuldades de concentração também merecem atenção.

Separação de Quartos: Solução Efetiva?

Mudar de quarto pode reduzir a exposição ao barulho, mas não trata a causa do ronco ou de uma eventual apneia. Uma pesquisa que comparou mulheres que dormiam ao lado de parceiros que roncavam com noites em que dormiam sozinhas encontrou redução de alguns indicadores de fragmentação do sono quando elas estavam sozinhas. No entanto, o estudo não identificou melhora substancial em todas as medidas objetivas de qualidade do sono.

Quando o ronco é frequente ou intenso, a recomendação é investigar o que está provocando o problema, especialmente na presença de outros sinais. “Se o ronco está sistematicamente prejudicando o descanso do casal, vale a pena investigar. E, principalmente, se existem pausas respiratórias, engasgos ou outros sinais sugestivos de apneia, não devemos normalizar o problema apenas por causa da duração do ronco”, reforça Nunes.

Tratamento da Apneia Obstrutiva

O CPAP foi utilizado no estudo como tratamento para os pacientes com apneia obstrutiva do sono, mantendo as vias aéreas abertas. A melhora do quadro clínico também esteve associada a mudanças na qualidade do descanso dos parceiros. Os avanços no diagnóstico e no tratamento da apneia obstrutiva do sono serão discutidos no 56º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, que ocorrerá entre 19 e 21 de novembro, no Paraná, reunindo especialistas brasileiros e internacionais.

Assistir televisão e ouvir música pode te ajudar a pegar no sono?

 *Sob supervisão de Carolina Figueiredo