Em um depoimento impactante prestado à Polícia Federal, José Luiz Felícia Filho, presidente da Voepass, reconheceu que tinha ciência de uma prática de omissão de falhas técnicas nos registros de aeronaves da companhia. Este relato ocorreu quase uma semana após a conclusão do inquérito sobre a queda trágica de um avião da Voepass em Vinhedo, que levou à morte de 62 pessoas no ano de 2024.
A investigação revelou que a cultura interna da Voepass buscava evitar a retenção de aviões para manutenção, priorizando a operação da malha aérea em detrimento da segurança das aeronaves. Durante a sua oitiva, Felícia Filho foi questionado sobre o comportamento de pilotos e mecânicos que, para não pernoitar em locais sem estrutura de manutenção, costumavam omitir falhas no Livro de Bordo.
Quando indagado, ele confirmou: “Sim, já tinha esse conhecimento. A aviação regional costuma ser o primeiro emprego de muita gente — tanto pilotos quanto copilotos e mecânicos — e havia, de fato, essa prática de deixar para reportar na próxima base de manutenção. A ANAC já havia me alertado sobre isso, sobre casos em que o piloto não queria pernoitar em determinada cidade.”
Provas de omissão de segurança
A investigação da Polícia Federal concluiu que a alta gestão da Voepass estava ciente da cultura de omissão, que incluía o não registro de falhas. Felícia Filho admitiu que foi alertado por diretores da ANAC sobre o padrão de conduta de seus funcionários, mas, segundo a PF, não houve ações efetivas para mudar essa situação perigosa.
No relatório final, destacou-se que “o próprio investigado confirmou ciência sobre a cultura de omissão da empresa de evitar o registro de falhas no Livro de Bordo”. Além disso, Felícia reconheceu que a aeronave PS-VPB não deveria ter decolado com o sistema de degelo apresentando panes, especialmente em uma rota prevista para enfrentar condições severas de gelo.
Ele afirmou: “A aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota”. Essa afirmação lança luz sobre a gravidade do descuido da empresa em questões de segurança.
Indiciamentos e consequências
A Polícia Federal indiciou 16 pessoas pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, incluindo Felícia, que foi indiciado por múltiplos crimes, dentre eles sinistro aéreo com resultados mortais. Ele ocupava a função de responsável por cumprir intimações eletrônicas dirigidas à empresa, sendo ciente das não conformidades apontadas pela ANAC ao longo dos anos.
A CNN Brasil tentou contato com a defesa do presidente da Voepass, que não se pronunciou até o momento. Por sua vez, a Voepass emitiu uma nota ressaltando seu comprometimento com a segurança operacional ao longo de seus mais de 30 anos de atuação. A companhia afirmou que sempre cumpriu rigorosamente os protocolos da ANAC.
A nota destaca que a Voepass mantém a certificação IOSA, concedida pela IATA, que garante altos padrões de segurança operacional. Também reafirmou que seus profissionais têm formação e experiência adequadas para prevenir situações críticas como as que levaram ao acidente.
Audiência e recomendações da ANAC
De acordo com as conclusões da investigação, ficou claro que a aeronave não deveria ter decolado, pois seu sistema de proteção contra gelo estava inoperante. O voo 2283, que partiu de Cascavel (PR) para Guarulhos (SP), enfrentou severas condições de gelo e, devido ao acúmulo de gelo, ocorreu a perda de controle da aeronave, resultando no trágico acidente.
O relatório ainda identificou erros por parte da tripulação durante o voo, que não reconheceram rapidamente a gravidade da situação e falharam em tomar as medidas corretas para evitar a formação excessiva de gelo. Apesar da habilitação e do treinamento anterior, a investigação ressalta que é essencial garantir um ambiente onde os pilotos possam reportar falhas sem receios para aumentar a segurança aérea.
A ANAC emitiu um comunicado, afirmando que está iniciando uma análise técnica detalhada das conclusões da investigação. Segundo a agência, o foco é no aprimoramento da segurança e prevenção de futuros acidentes, e não na responsabilização direta dos envolvidos.
Este caso levanta questões cruciais sobre a segurança da aviação regional e a necessidade de uma cultura que priorize a integridade operacional acima da pressão para manter operações em andamento. A continuidade das investigações e o desdobramento da situação serão observados de perto, tanto pela comunidade da aviação quanto pelas famílias das vítimas afetadas por essa tragédia.



