Bem próximo à Ilha Kri, em Raja Ampat, na Indonésia, tubarões pontilhados de um metro de comprimento deslizam sob a água — uma visão que conservacionistas dizem ter sido extremamente rara até pouco tempo atrás. Essa recuperação é resultado de esforços notáveis para revitalizar a população dessa espécie ameaçada.
O tubarão-leopardo do Indo-Pacífico — também conhecido como tubarão-zebra — habitou historicamente os recifes do Oceano Indo-Pacífico Ocidental, incluindo o Mar Vermelho, a África Oriental, o Japão e a Austrália. Contudo, a destruição de habitat e a sobrepesca reduziram a população entre 50-79% nas últimas três gerações (cerca de 57 a 72 anos). Eles são classificados como em perigo pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).
Embora seu declínio tenha sido impulsionado pelo comércio de barbatanas de tubarão, a captura acidental e o comércio de couro exótico ainda representam desafios consideráveis. Nos últimos anos, particularmente em Raja Ampat, os tubarões-leopardo estavam praticamente extintos. O Grupo de Especialistas em Tubarões da SSC da IUCN estimou que, sem intervenções, levaria entre 100 a 200 anos para que a população se recuperasse naturalmente.
Para combater essa situação, um grupo global chamado “ReShark” está implementando o primeiro programa de rewilding de tubarões do mundo. A iniciativa, intitulada projeto Stegostoma tigrinum Augmentation and Recovery (StAR), foca em tubarões-leopardo criados em aquários ao redor do mundo, que são posteriormente soltos em áreas protegidas na Indonésia e na Tailândia.
Em 2019, estimou-se que havia apenas cerca de 20 tubarões adultos em Raja Ampat, segundo Mark Erdmann, diretor executivo do ReShark. “A maioria das atividades de conservação de tubarões geralmente gira em torno de áreas marinhas protegidas ou gestão pesqueira. No nosso caso, nosso nicho é a recuperação ativa”, diz Erdmann, ressaltando a inovação que esse projeto traz para a conservação marinha.
Esta ideia emergiu durante uma visita de Erdmann ao SEA Aquarium de Singapura em 2015, onde ele viu tanques cheios de filhotes de tubarão-leopardo criados em cativeiro. A equipe expressou preocupação, citando que estavam produzindo filhotes demais sem um plano para o futuro deles. Esse encontro inspirou um esforço de oito anos envolvendo governos, aquários e comunidades locais para liberar filhotes criados em cativeiro nas águas da Indonésia.
Os tubarões-leopardo do Indo-Pacífico são inofensivos para os humanos e apresentam uma característica singular: eles se reproduzem através de ovos, sendo os maiores entre os tubarões que botam ovos, o que os torna ideais para estratégias de rewilding.
David Ebert, diretor de programa do Pacific Shark Research Center, salienta que cerca de 43% dos tubarões botam ovos, enquanto os vivíparos enfrentam desafios diferentes. Essa característica fornece uma boa base para projetos experimentais como o de ReShark. Ebert, conhecido como o “Lost Shark Guy”, destaca também o conceito de “fator fofo” dos tubarões-leopardo, que pode ser uma vantagem para a conservação.
O ReShark, apoiado pela Perpetual Planet Initiative da Rolex, formou parcerias com quase 60 aquários globalmente. Decorrente dessas parcerias, cerca de uma dúzia estão ativamente reproduzindo tubarões para o programa. Os ovos viáveis são transportados para berçários em Raja Ampat e Phuket, na Tailândia. Especialistas, apelidados de “babás de tubarão”, cuidam deles até que atinjam um metro de comprimento e consigam se alimentar por conta própria; então, são marcados e liberados em águas protegidas.
O treinamento dos cuidadores é rigoroso e visa garantir o manejo responsável dos filhotes. Além disso, o programa visa envolver a comunidade local, reforçando a importância de seu suporte para a conservação. Erdmann enfatiza que é crucial que as populações locais estejam engajadas, evitando a repetição de práticas prejudiciais ao longo dos anos anteriores, quando os tubarões eram capturados e mortos.
Ainda assim, alguns especialistas permanecem cautelosos em relação à eficácia do programa a longo prazo. Ebert descreve a iniciativa como inovadora, mas ressalta que se trata de um experimento. Uma das principais perguntas é se os tubarões liberados conseguirão sobreviver o suficiente para se reproduzir na natureza. Considerando que esses tubarões podem levar de 5 a 12 anos para alcançar a maturidade, a primeira oportunidade de avaliação do sucesso do programa será em 2028.
Outra preocupação é se a liberação de mais tubarões em uma área ainda sob pressão pesqueira poderá, inadvertidamente, torná-los alvos mais fáceis. “Apesar de protegidos, eles podem nadar para onde quiserem. Assim, o aumento da população poderia resultar em mais tubarões sendo capturados”, adverte Ebert.
No entanto, Erdmann afirma que o ReShark opera apenas em santuários dedicados à conservação. Raja Ampat, por exemplo, é um santuário destacado de 46.000 quilômetros quadrados (17.760 milhas quadradas) voltado para tubarões e raias-manta. Dados de satélite mostram que a maioria dos filhotes liberados permanece em um raio de 100 a 150 quilômetros (62 a 99 milhas) do local de soltura. Ao envolver a comunidade local nesse processo, os pescadores, por sua vez, passaram a proteger ativamente os tubarões-leopardo.

