Durante a COP30, em Belém, a conferência que reuniu o mundo para discutir o clima, um em cada quatro atendimentos nos ambulatórios do evento esteve ligado a pessoas sofrendo com o calor, segundo a pesquisadora Carla Mayumi. “As pessoas viveram, literalmente, na pele o que é o tema do evento”, disse a cofundadora da Talk Inc.
Para Carla, o episódio é símbolo de uma virada. Durante anos, a sustentabilidade nas empresas foi sinônimo de mitigação: reduzir emissões, compensar carbono, publicar metas de longo prazo. Agora, além disso, entra em cena outra palavra: “Não é mais mitigar. Passamos do termo mitigar. Agora é adaptação”, afirmou.
A mudança está registrada nos resultados da conferência. A decisão final da COP30 prevê triplicar o financiamento para adaptação nos países em desenvolvimento até 2035, e a presidência brasileira lançou, com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, um mutirão global contra o calor extremo. Para as marcas, afirmou Carla, a consequência é imediata: a crise climática deixou de ser um assunto apenas no relatório anual de ESG e passou a definir o que se vende, quando, onde e como.
O impacto humano da mudança climática
O ponto de partida é a dimensão social da crise. Segundo os dados apresentados por Carla, 62% dos brasileiros afirmam que a mudança climática afeta muito a comunidade onde vivem. Em uma pesquisa da Talk com um instituto dedicado ao clima, divulgada cerca de um mês antes do evento, 33% relataram que eles ou alguém da família direta tiveram problemas cardíacos ou de pressão associados ao calor extremo, e 40% mencionaram problemas respiratórios causados por fumaça ou poluição.
Nos grupos de pesquisa, surgiram histórias de pessoas que mudaram de cidade para fugir do calor ou que, no Rio de Janeiro, acordam de madrugada para colocar gelo na frente do ventilador para conseguir dormir. O impacto econômico também é visível: Carla citou uma estimativa da Organização Internacional do Trabalho, que aponta R$ 6,8 bilhões em horas não trabalhadas no Brasil por afastamentos ligados ao calor, cerca de 1% do PIB.
O Japão se tornou um exemplo de como esse custo vira regulação. Desde junho de 2025, empregadores japoneses são obrigados a adotar protocolos contra a insolação em locais de trabalho com calor intenso, sob pena de multa de até 500 mil ienes. No Brasil, o iFood já proporcionou orientações aos seus entregadores sobre como se proteger em dias de calor extremo, com itens como balaclavas e protetor solar. “Isso é uma questão de saúde pública e uma questão econômica”, resumiu.
Cadeias produtivas em transformação
Os efeitos mais visíveis para o consumidor começam no campo. O exemplo mais didático citado por Carla foi o do chocolate. Entre 2023 e 2024, chuvas fora de época seguidas de seca na África Ocidental, uma região que concentra a maior parte da produção mundial de cacau, resultaram em safras comprometidas em países como Gana e na duplicação do preço da matéria-prima. Os fabricantes reagiram aumentando os preços ou reduzindo o teor de cacau, e produtos rotulados como “sabor chocolate” ganharam espaço nas prateleiras. “Tudo começou por uma questão climática”, afirmou.
