O aumento contínuo no consumo de derivados de trigo no Brasil está impulsionando a demanda por este cereal, resultando em uma moagem nacional que ultrapassa 13 milhões de toneladas pelo segundo ano consecutivo. A pesquisa da Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo) revela que 140 moinhos de 105 empresas processaram 13,27 milhões de toneladas de trigo no ano passado, o que representa um acréscimo de 0,6% em relação a 2024.
Esse crescimento na moagem está alinhado com a mudança no perfil de consumo da população brasileira, que atualmente busca mais derivados do trigo, como massas, biscoitos e pães congelados. Daniel Kummel, presidente da Abitrigo, observou: “O setor está crescendo acima do crescimento populacional, com os brasileiros consumindo cada vez mais produtos à base de trigo”.
A Distribuição da Farinha de Trigo
A panificação e as pré-misturas são responsáveis pela maior parte da farinha de trigo processada no Brasil, somando 30% do total. A indústria de massas, que apresentou um crescimento recente, representa 18% dessa moagem. Em seguida, vêm os biscoitos com 12%, enquanto o varejo, com embalagens de 1 quilo, responde por 10%. Pães industriais e embalagens de 5 quilos dividem 9% cada, e o restante é destinado a pães congelados, farinhas integrais e outros produtos alimentícios.
Regiões com Maior Moagem de Trigo
Em termos absolutos, a região do Paraná lidera com a maior moagem anual, totalizando 3,5 milhões de toneladas. Este resultado está ligado à robustez histórica do estado como produtor de trigo, que possui uma capacidade instalada de 4,4 milhões de toneladas. A diferença entre a capacidade instalada e a moagem anual é notável também em Santa Catarina e São Paulo. Santa Catarina processou 474,6 mil toneladas em 2025, enquanto sua capacidade é de 700 mil toneladas. São Paulo moeu 1,7 milhão de toneladas, tendo uma capacidade de 2,5 milhões de toneladas.
O Rio Grande do Sul, um importante produtor de trigo, moeu 1,3 milhão de toneladas frente a uma capacidade de 1,8 milhão. O aumento da moagem, no entanto, não é suficiente para aliviar a pressão sobre a rentabilidade do setor, que enfrenta desafios como o aumento dos custos logísticos e as oscilações cambiais. Kummel destacou: “Os custos de importação e o preço do trigo interno sofreram impactos significativos”.
Apesar do aumento na moagem, o Brasil continua a depender das importações. A produção estimada para o último ciclo foi de 7,9 milhões de toneladas, enquanto o consumo gira em torno de 12 milhões de toneladas, o que significa que o país ainda precisa buscar no mercado externo para atender à demanda.
Dependência das Importações e Impactos Climáticos
Segundo a pesquisa da Abitrigo, as regiões do Nordeste e Norte são quase totalmente dependentes de produtos importados, com 95% da moagem na região vindo do exterior. São Paulo, por sua vez, importa 72% do trigo que processa, enquanto no Centro-Oeste, a situação é um pouco melhor, mas ainda 64% do trigo processado é importado. Kummel observou que essa dependência é resultado de fatores estruturais e logísticos. “Os moinhos localizados próximos ao litoral têm uma logística muito mais vantajosa para a importação do que para adquirir trigo de outras regiões do Brasil”, explicou.
Além disso, o cenário internacional apresenta desafios. A guerra entre Rússia e Ucrânia, que começou em 2022, resultou em um aumento dos preços globais do trigo. Outras tensões internacionais, como as entre Irã e Estados Unidos, também têm contribuído para a volatilidade dos preços no mercado. Mesmo assim, a Abitrigo assegurou que “não há risco de desabastecimento”, já que os moinhos operam com estoques físicos estratégicos para garantir um fornecimento contínuo ao mercado consumidor.
No entanto, a preocupação do setor agora se concentra no comportamento climático e seus impactos sobre a produção agrícola. Kummel observa que “o ambiente ainda é incerto e pode trazer complexidade para os preços nos próximos meses”. Essa situação ressalta a necessidade de uma maior autossuficiência de trigo no Brasil, que continua a enfrentar barreiras para alcançá-la.