O setor sucroenergético está investindo em inovações para se tornar mais sustentável, buscando novos métodos que visam a redução de emissões e a maximização de resíduos. Essa transição é crucial para amplificar a rentabilidade das usinas.
Entre as soluções destacadas, a troca de combustíveis fósseis por biometano, o desenvolvimento de biofertilizantes e as estratégias de captura e armazenamento de dióxido de carbono (CO₂) estão em evidência.
Durante a 26ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol, a empresa Cocal apresentou suas iniciativas assim como a FS, produtora de etanol de milho, que já implementam essas tecnologias de ponta no mercado.
As práticas demonstram como a descarbonização está se tornando uma parte integrante das operações industriais e logísticas no setor. Um exemplo é a Cocal, que utiliza resíduos da cana-de-açúcar para a geração de biogás e biometano, combustível que é empregado tanto em suas atividades como no transporte de cargas.
Por outro lado, a FS está implementando um projeto de captura e armazenamento de carbono em Lucas do Rio Verde (MT), buscando reduzir as emissões do etanol de milho a níveis negativos.
Economia Circular no Setor Sucroenergético
A Cocal criou uma plataforma de economia circular, que permite a integração de diversas fases da produção sucroenergética. Abel Uchoa, diretor-presidente da empresa, destaca que, além de açúcar, etanol e bioeletricidade, subprodutos como vinhaça e torta de filtro são transformados em biogás e biometano.
As estratégias também abrangem a coleta de resíduos orgânicos, como esterco bovino e de aves, ampliando a oferta para as plantas de biodigestão. Essa abordagem promove novas oportunidades para reaproveitamento e culmina na produção de biofertilizantes, contribuindo para uma gestão mais eficiente dos recursos.
A busca por eficiência reduz o desperdício e permite a diversificação de fontes de receita, além de diminuir a dependência de combustíveis fósseis em operações tanto agrícolas quanto industriais.
A utilização de biometano está avançando de maneira significativa também na logística do setor. Um exemplo dessa aplicação é a operação BioRota, idealizada pela Copersucar em colaboração com transportadoras, que utiliza caminhões movidos a biometano para distribuir açúcar do interior paulista até o Porto de Santos.
De abril de 2024 a março de 2026, a iniciativa conseguiu realizar mais de 13 mil viagens, percorrendo aproximadamente 11 milhões de quilômetros e transportando cerca de 600 mil toneladas de açúcar. Essa parceria evitou a emissão de mais de 8 mil toneladas de CO₂ devido à substituição do diesel pelo biometano.
Inovação na Captura de Carbono
A FS, por sua vez, trabalha em um projeto de captura e armazenamento de carbono como estratégia para reduzir sua pegada de carbono. O projeto em Lucas do Rio Verde visa capturar o CO₂ gerado na fermentação do etanol, compressá-lo e injetá-lo em formações geológicas subterrâneas, permitindo o armazenamento a longo prazo.
Foi identificado um reservatório geológico adequado, com características que garantem a segurança do armazenamento, como porosidade e camadas de rocha que impedem o retorno do gás à atmosfera. Daniel Lopes, vice-presidente executivo de sustentabilidade da FS, explicou que o local pode armazenar até 12 milhões de toneladas de CO₂ em um período de 30 anos, enquanto a unidade emite cerca de 423 mil toneladas por ano.
Essas iniciativas têm o potencial de permitir a produção de até 650 milhões de litros de etanol por ano com uma intensidade de carbono negativa, dependendo da metodologia de contabilização usada. O empreendimento é classificado como projeto-piloto pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), contribuindo para o desenvolvimento das diretrizes para a captura e armazenamento geológico de carbono no Brasil.
Perspectivas para o Etanol de Baixo Carbono
A captura de carbono não só ajuda a diminuir as emissões, mas também pode abrir portas para mercados que buscam combustíveis com menor intensidade de carbono. Isso inclui alternativas nos setores de aviação e marítimo, além de programas de proteção ambiental e de compensação por emissões de carbono.
Embora a implementação dessas soluções traga impactos positivos, a remuneração adicional dependerá de variáveis como as regras de cada mercado, a certificação do produto e a metodologia utilizada para cálculo das emissões evitadas ou removidas.
Vale ressaltar que, na fermentação, o CO₂ gerado é de origem biogênica, e sua captura ocorre antes de ser lançado na atmosfera. A viabilidade dependente de diversos fatores, desde os custos de captura até a capacidade de armazenamento, será essencial para assegurar um retorno financeiro à indústria.
Essas estratégias ilustram uma nova forma de avaliação da sustentabilidade das usinas. A redução das emissões torna-se sinônimo de eficiência operacional, diversificação de receitas e novos produtos e serviços. O futuro da indústria sucroenergética depende da evolução das tecnologias, regulamentações adequadas e incentivos econômicos, além da comprovação da viabilidade comercial e operacional.


