As recentes negociações EUA-Irã têm revelado um cenário diplomático intrigante. Durante a entrevista ao CNN Prime Time, Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, apresentou uma visão profunda sobre os desafios e avanços nas tratativas entre esses dois países.
Brustolin destacou que, apesar da destruição significativa da marinha iraniana e das perdas na força aérea devido a ataques dos EUA e de Israel, o Irã mantém um poder militar expressivo. “O Irã possui uma força terrestre robusta, com efetivos que totalizam 610 mil militares ativos e 350 mil reservistas”, afirmou. Essa força é crucial para o país projetar poder na região, especialmente no Estreito de Ormuz, utilizando táticas que incluem minas navais, drones e mísseis.
“Estamos diante de uma negociação não de um país derrotado, mas de um que, embora afetado por bombardeios, preserva sua capacidade militar”, ressaltou Brustolin, tornando evidente que o Irã ainda desempenha um papel importante nos jogos de poder da região.
Pressões eleitorais nos EUA
Outro ponto destacado por Brustolin é o tempo, que pode favorecer o regime iraniano. Com as eleições nos EUA se aproximando, Donald Trump está sob pressão, tanto de sua base eleitoral quanto do partido republicano. “O movimento MAGA (Make America Great Again) critica Trump por postura bélica, contrastando com suas promessas de campanha de ser um presidente da paz”, lembrou o especialista.
Essa contradição pode ter repercussões significativas no apoio que Trump recebe, especialmente em relação à sua abordagem em relação ao Irã e às guerras no Oriente Médio. “O ex-presidente afirmou que a Kamala Harris levaria os EUA a um conflito, mas sua própria postura atual pode ser questionada pelos seus apoiadores”, observou Brustolin.
Negociações nucleares
As questões nucleares estão no centro das discussões. Brustolin enfatizou que, após a retirada de Trump do acordo nuclear de 2015, o Irã intensificou seu programa de enriquecimento de urânio. “Atualmente, o Irã possui 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, um patamar próximo do necessário para produções nucleares mais avançadas”, alertou.
As propostas de negociação mostram um impasse significativo. Enquanto J.D. Vance, vice de Trump, sugere que o Irã se comprometa a não enriquecer urânio por 20 anos, o país persa oferece apenas cinco anos. Esta discrepância reflete a complexidade nas negociações e a habilidade do Irã em manter seu poder de barganha, mesmo após as adversidades enfrentadas durante ataques militares.
