Importação de máquinas agrícolas sobe 42%; confira os impactos econômicos

Importação de máquinas agrícolas sobe 42%; confira os impactos econômicos

As vendas de máquinas agrícolas no Brasil enfrentam desafios consideráveis, apresentando uma queda notável de 15,8% em unidades entre janeiro e agosto de 2026, quando comparadas ao mesmo período do ano anterior. Esse levantamento, realizado pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), destaca ainda uma retração alarmante de 39,4% especificamente no setor de colheitadeiras. Em contrapartida, as importações de máquinas agrícolas estão em alta, com um crescimento de 42% de janeiro a setembro, aumentando a concorrência para os fabricantes locais.

Esses números corroboram um cenário de retrocesso que já havia sido sinalizado pela Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos). De acordo com a entidade, o faturamento das vendas de máquinas e equipamentos agrícolas atingiu R$ 36,3 bilhões entre janeiro e agosto, uma drástica queda de 22,4% em relação ao mesmo período de 2025. Em junho, foi constatado um recuo acumulado de 21,3% no faturamento do primeiro semestre, totalizando R$ 26,64 bilhões.

Os relatórios elaborados pelas duas associações abordam aspectos distintos do mercado: a Anfavea foca no volume de máquinas vendidas, enquanto a Abimaq analisa a receita gerada. Juntas, essas informações evidenciam que a fraqueza do mercado não se limita a uma categoria específica de equipamento ou a um único indicador econômico.

Colheitadeiras enfrentam a maior retração

Entre janeiro e agosto, as vendas de tratores de rodas apresentaram uma diminuição de 14,1%, passando de 29,7 mil unidades para 25,5 mil no intervalo comparado de 2025. Já as vendas de colheitadeiras sofreram uma queda extraordinária, reduzindo de 2,3 mil para 1,4 mil unidades, conforme relatado pela Anfavea.

Esse declínio ocorre em um contexto onde o custo do crédito permanece elevado e a rentabilidade dos produtores rurais está sob pressão. Segundo a Anfavea, o alto nível de endividamento e a reduzida capacidade de geração de caixa têm desestimulado a aquisição de novos equipamentos. No setor das colheitadeiras, o investimento elevado torna a decisão de compra especialmente sensível às condições de financiamento disponíveis.

A Abimaq já havia identificado o endividamento dos agricultores e os impactos da variação cambial sobre os preços das commodities como fatores limitantes que restringem a capacidade de investimento e atrasam a renovação da frota de máquinas agrícolas.

Importações crescem significativamente, com foco na China e Índia

Enquanto as vendas internas enfrentam a retração, houve um aumento significativo nas importações de máquinas agrícolas, que avançaram 42% de janeiro a setembro, segundo dados do comércio exterior apresentados pela Anfavea. Além disso, as exportações brasileiras também registraram crescimento de 9% no mesmo período.

China e Índia sobressaem como os principais fornecedores externos de tratores agrícolas. Até setembro, foram importadas 5.249 unidades de cada um desses países. Notavelmente, as compras de tratores chineses aumentaram poderosamente, alcançando um crescimento de 117% em um ano, enquanto as de origem indiana cresceram 11%.

O crescimento chinês é particularmente concentrado em equipamentos de menor potência. Aproximadamente 90% dos tratores importados até setembro possuíam até 100 cavalos de potência. A faixa entre 50 e 100 cavalos totalizou 6.412 unidades, uma elevação de 56% em relação ao mesmo período de 2025.

Esses dados evidenciam que os fornecedores asiáticos estão intensificando sua presença em categorias cruciais do mercado brasileiro, justamente em um momento de retração nas vendas internas. A Anfavea também destaca a participação crescente de máquinas chinesas nas licitações públicas.

Máquinas chinesas ganham força nas licitações

Em 2025, equipamentos de origem chinesa corresponderam a 33,5% das unidades de máquinas autopropulsadas licitadas no Brasil e 26% do valor total das compras, conforme levantamento apresentado pela Anfavea, com base em dados do Portal Nacional de Contratações Públicas. Esse conjunto de dados abrangeu 10.603 produtos, somando um valor total de R$ 3,7 bilhões.

Os tratores agrícolas foram responsáveis por 3.318 unidades licitadas, onde 65% eram importados. Em categorias diferentes, a produção local mostrou-se mais forte, com 84% nas retroescavadeiras e 86% nas escavadeiras hidráulicas.

Assim, a presença de máquinas importadas varia conforme o tipo de equipamento, sendo especialmente significativa no segmento de tratores agrícolas, onde os fornecedores asiáticos têm ampliado sua fatia de mercado.

Custos elevados pressionam a indústria nacional

Além da demanda em baixa e da concorrência externa, a Anfavea também destaca um aumento dos custos relativos a componentes plásticos utilizados na produção de máquinas. A manutenção da alíquota de importação de 20% sobre resinas plásticas e polímeros, somada a medidas antidumping, pode elevar entre 4% e 7% os custos desses insumos.

Essa pressão sobre os custos ocorre simultaneamente à retração do mercado interno e ao aumento nas importações, criando uma combinação desafiadora para a competitividade dos fabricantes nacionais.

No entanto, o cenário não é homogêneo em todos os segmentos de máquinas autopropulsadas. As vendas internas de máquinas rodoviárias, por exemplo, totalizaram 27 mil unidades de janeiro a agosto, um aumento de 13,1% em comparação anual. De acordo com a Anfavea, esse desempenho é sustentado pela atividade na construção civil e pelos investimentos em infraestrutura, que têm favorecido a demanda por escavadeiras, motoniveladoras e pás carregadeiras.