O Amazonas enfrenta graves riscos ambientais, colocando crianças e adolescentes em situação de alta prioridade. Essa constatação vem de uma nota técnica do Painel Crianças e Meio Ambiente, divulgada em julho pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Vital Strategies. Os dados revelam a realidade alarmante em que esses jovens estão expostos.
O painel avalia 14 indicadores em quatro áreas principais: qualidade do ar, infraestrutura ambiental e urbana, eventos climáticos extremos e ambiente escolar. Com isso, classifica os 5.570 municípios brasileiros em três níveis de prioridade. O nível 3, o mais crítico, sinaliza necessidade de ação imediata. A comparação é predominantemente feita entre municípios de porte populacional semelhante.
Segundo o documento, os estados que concentram o maior número de municípios em níveis críticos incluem Pará, Acre, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso, todos localizados na Amazônia Legal. Das 30 cidades com pior desempenho no país, 24 estão na Região Norte, destacando a seriedade da situação.
Secas e Riscos Climáticos
O indicador de secas no Amazonas é alarmante. Municípios do vale do Rio Negro e áreas do Acre registraram, entre 2021 e 2025, estiagens sem precedentes que merecem atenção imediata. Esses dados contrastam com a realidade do Nordeste, que, apesar de sua associação histórica com a seca, apresentou valores próximos de zero no mesmo indicador. Essa discrepância evidencia a mudança na frequência da seca recente, que não deve ser confundida com a seca endêmica do semiárido.
O documento sugere que o indicador de secas deve ser considerado em conjunto com o acesso à água, uma vez que essas estiagens comprometem o abastecimento humano, a produção de alimentos e a segurança alimentar das famílias.
Saneamento e Qualidade do Ar no Amazonas
Os indicadores de saneamento reforçam o quadro alarmante para as crianças e adolescentes na região amazônica. Na Região Norte, 78% dos municípios estão em alta prioridade quanto ao acesso à rede de abastecimento de água. Além disso, 87% enfrentam problemas graves de esgotamento sanitário, enquanto 60% carecem de água tratada.
As populações ribeirinhas, que dependem dos rios como fonte fundamental para abastecimento, transporte e alimentação, sofrem um impacto particularmente severo. A contaminação dos corpos hídricos leva à propagação de doenças infecciosas que afetam principalmente as crianças pequenas.
Na qualidade do ar, 94% dos municípios no Norte estão em estado crítico em relação à concentração de partículas finas (PM2,5) acima dos limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde, um resultado diretamente associado às queimadas. Essa exposição contínua a poluentes está ligada a doenças respiratórias e ao comprometimento do desenvolvimento pulmonar na infância.
Perspectivas Futuras e Desafios
Os eventos climáticos também fazem parte deste quadro preocupante. A análise revela que 91% dos municípios da região estão em alta prioridade em relação ao indicador de chuvas intensas, e 60% enfrentam o risco de ondas de calor, que elevam as chances de internações e até mortes entre crianças pequenas durante episódios extremos.
No ambiente escolar, 71% dos municípios no Norte estão no nível máximo de prioridade, onde as escolas não dispõem simultaneamente de água encanada, esgotamento sanitário e coleta de lixo. Essa situação é ainda mais alarmante nas escolas do campo, indígenas e quilombolas, que precisam de atenção especial.
O Novo Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020) estabelece metas ambiciosas de universalização dos serviços até 31 de dezembro de 2033. A lei exige que os contratos do setor garantam água potável a 99% da população e coleta e tratamento de esgoto a 90%. Contudo, esses patamares estão distantes da realidade nos municípios amazônicos.
Embora o contexto seja desafiador, a análise sugere que os resultados positivos observados nas regiões Sul e Sudeste são replicáveis. Essa melhoria é fruto de décadas de investimento em saneamento, gestão de resíduos e habitação. Assim, a transformação das condições nas regiões vulneráveis requer políticas públicas adequadas, financiamento e fortalecimento da gestão municipal.