A Polícia Militar anunciou a desocupação do prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) neste domingo (10), onde estudantes estavam acampados desde o dia 7 de maio em greve. Essa paralisação, que se iniciou em abril, ganhou destaque pela brutalidade da ação policial, que resultou na detenção de quatro estudantes, de acordo com o Diretório Central dos Estudantes (DCE).
A operação da polícia foi relatada pelos próprios estudantes, ocorrendo por volta das 4h15. Os universitários relataram que a atuação violenta da polícia deixou vários feridos devido ao uso de bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. O DCE afirmou que mais de 30 policiais utilizaram escudos e cassetetes em uma abordagem que incluiu a formação de um “corredor polonês”, prática em que os detidos são agredidos ao passar entre fileiras de policiais.
Até o fechamento desta reportagem, a Polícia Militar não havia se manifestado oficialmente sobre a ação, mas um comunicado do DCE expressou revolta: “Violentamente expulsaram os estudantes que lutavam por melhores condições. Com escudos, cassetetes e gás lacrimogêneo, a polícia deixou dezenas de estudantes feridos.” A declaração ainda ressalta a responsabilidade do reitor Aluísio Segurado e seu chefe de gabinete Edmilson Dias de Freitas pela repressão contra os alunos em um dia simbólico, o Dia das Mães.
Contexto da Greve na USP
A greve, que conta com a participação de 104 cursos, foi aprovada em 14 de abril por estudantes que, segundo o DCE, se revezaram em grupos de 150 a 200, realizando atividades culturais e de limpeza no espaço ocupado. As reivindicações, que continuam sem resposta da reitoria, começaram em apoio a uma mobilização de servidores que reivindicavam melhores condições de trabalho e salários, e se expandiram para as demandas dos estudantes.
Dentre as principais demandas dos estudantes está o reajuste no Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), atualmente com benefícios de R$ 335 para estudantes em moradia estudantil e R$ 885 para auxílio integral. A proposta apresentada pela universidade, baseada no índice IPC-FIPE, sugere um aumento que, segundo os alunos, é insuficiente. A reitoria propôs um auxílio integral de R$ 912 e um auxílio parcial de R$ 340, enquanto os estudantes reivindicam um valor de R$ 1.804, correspondente ao salário mínimo paulista.
Dany Oliveira, estudante de Artes Cênicas, ressaltou que essa é uma pauta antiga, declarando: “Faz mais de um ano que os estudantes já estabeleceram que uma de suas pautas principais em relação às bolsas estudantis está ligada ao aumento para um salário mínimo.” Apesar de a reitoria ter aberto três rodadas de negociação, a rejeição das propostas levou ao término unilateral das conversas, aumentando a insatisfação entre os grevistas.
Criticas à Gestão Universitária
Além do aumento no auxílio, os estudantes também levantam críticas em relação à gestão de infraestrutura da universidade. Questões como o funcionamento do restaurante universitário, também conhecido como bandejão, e a situação das moradias estudantis estão na pauta. Os manifestantes também apontam problemas sérios no Hospital Universitário (HU), que perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década, impactando significativamente o atendimento e a qualidade do serviço oferecido.
Os estudantes da USP não se sentem ouvidos pela administração e a decisão da reitoria em encerrar as negociações unilateralmente é percebida como um desrespeito às suas reivindicações. Os universitários têm se mobilizado constantemente em busca de condições de permanência e apoio dentro da instituição, e as tensões só aumentam com a repressão policial.
As ações violentas da polícia, ocorridas em um momento sensível e de luta por melhorias estruturais e financeiras, intensificam o debate sobre a repressão às manifestações estudantis e o papel da segurança pública em instituições de ensino. Com o apoio dos diversos cursos, os estudantes se mantêm firmes em sua luta, buscando ecoar suas vozes e reivindicações dentro e fora da universidade.
A luta por melhores condições na USP reflete um panorama maior de insatisfação entre os estudantes brasileiros, que esperam ser ouvidos e respeitados em suas demandas. A agitação política e as reivindicações por direitos básicos na educação superior têm se intensificado, e as consequências das ações policiais na USP podem ressoar além de suas paredes.
