Na década de 1970, o sacerdote jesuíta italiano Giovanni Gallo assumiu a paróquia de Santa Cruz do Arari, na Ilha do Marajó (PA), e implementou um projeto socioeconômico inovador baseado no artesanato local. Esse projeto não só proporcionou um meio de subsistência para a população, mas também contribuiu significativamente para a preservação cultural da região. Segundo levantamento documental e pesquisa etnográfica publicada na revista Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia (2016), Gallo criou um laboratório na Vila de Jenipapo onde ensinou mulheres locais a embalsamar piranhas.
Ao todo, 12 mil exemplares de piranhas empalhadas foram exportados para a Itália por meio de sua rede de contatos na Europa. Essa atividade se mostrou vital para a economia local, estabelecendo novas oportunidades de emprego e renda para as moradoras da comunidade.
Infraestrutura e o Museu do Marajó
Os recursos obtidos com a comercialização dos objetos artesanais foram aplicados de forma direta no pagamento das trabalhadoras e na realização de obras públicas na comunidade. As melhorias na infraestrutura local foram notáveis e impactaram positivamente a qualidade de vida dos habitantes.
Entre as benfeitorias registradas constam a construção de 350 metros de pontes em madeira de lei, um trapiche comunitário, um cemitério para o período de cheias e uma pista de pouso com 800 metros de extensão para o tráfego aéreo regional. Essa transformação na infraestrutura facilitou o acesso e a mobilidade das pessoas, fortalecendo a conectividade da região.
A verba restante das vendas viabilizou a estrutura inicial da Associação “O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari”, que posteriormente se consolidou como o Museu do Marajó. O acervo do museu reúne peças arqueológicas e fragmentos de cerâmica marajoara, doados pela população, e se tornou um importante centro de referência para a cultura local.
Impacto Socioeconômico e Preservação Cultural
A iniciativa liderada por Giovanni Gallo gerou não só autonomia financeira temporária, como também estimulou a formação de uma consciência histórica entre os habitantes locais em relação ao patrimônio cultural do arquipélago. Ao resgatar e valorizar elementos da cultura marajoara, o projeto ajudou a estabelecer um diálogo entre passado e presente, conservando as tradições enquanto promove o desenvolvimento.
O modelo de gestão comunitária desenvolvido por Gallo não apenas transformou a preservação da memória, mas também a convirtió em um vetor de desenvolvimento social na região. Com o tempo, a comunidade começou a entender melhor a importância de sua história e cultura, levando a um aumento do turismo cultural na área, que trouxe novas oportunidades econômicas.
Esse ciclo virtuoso de valorização cultural e desenvolvimento social contribuiu para que o Museu do Marajó se tornasse um espaço importante para a educação e a pesquisa, atraindo visitantes e pesquisadores interessados no rico patrimônio da Ilha do Marajó. A sensibilização para a cultura local ajudou a estreitar laços entre as gerações, passando conhecimentos e tradições que poderiam ter sido esquecidos.
Além disso, o trabalho de Gallo e sua equipe na paróquia e no museu criou um espaço de reflexão e diálogo em torno da identidade cultural marajoara. O foco em práticas sustentáveis e na valorização do que é local fortaleceu a autoestima da comunidade, mostrando que é possível conciliar desenvolvimento econômico com preservação cultural. A história de Santa Cruz do Arari ilustra como intervenções comunitárias acertadas podem revitalizar tradições e ao mesmo tempo trazer melhorias substanciais na vida dos cidadãos.



